Muitas vezes, com o desejo que nossas crianças sejam obedientes, nós impomos nossas vontades a elas, e não nos damos conta de como a nossa imposição pode desenvolver nas crianças sentimentos negativos como sensação de perda, revolta e submissão. Eu sei que não fazemos por mal, na grande maioria das vezes estamos repetindo padrões que nos foram passados e agimos assim porque algo dentro de nós se desestabiliza com a sensação de perda de controle.
A criadora da Disciplina Positiva tem uma frase bastante forte mas muito verdadeira sobre a nossa imposição às crianças:
“Impor-se às crianças as torna perdedoras, e perder torna as crianças revoltadas ou cegamente submissas; nenhuma dessas características é desejável. Conquistar as crianças significa obter sua cooperação espontânea”. Essa frase é um trecho do livro “Disciplina Positiva”, da autora Jane Nelsen.
Também fomos criados assim
A maioria de nós foi criada a partir dessa lógica e, muitas vezes, não reconhecemos em nós mesmos essa submissão, essa revolta, esse sentimento de perda. Claro que os nossos pais fizeram o melhor que puderam com todas as ferramentas que tinham, não foi por mal, e nem estamos aqui para discutir a culpa ou responsabilidade deles sobre isso.
O que eu quero dizer é que a gente viveu dentro dessa lógica de imposição e de submissão e nós, atualmente, já fizemos uma revisão sobre essa lógica, já entendemos o que a Jane disse sobre essas características não desejáveis, não saudáveis para nos tornarmos seres humanos confiantes em nós mesmos e que também confiam no mundo.
A educação das gerações anteriores e seus reflexos
Eu percebo que as gerações anteriores tinham uma grande preocupação em nos ensinar sobre o mundo e fazer com que a gente pudesse estar sempre agradando, respeitando, fazendo tudo pelos outros, e isso também é maravilhoso, algo muito importante de ser desenvolvido — não queremos eliminar isso de maneira alguma —, mas faltou, talvez, um pouco desse lado mais interno das habilidades intrapessoais, das habilidades de você consigo mesmo, porque, nessa lógica de imposição, o resultado vai ser de submissão.
Por isso, para a maioria das pessoas é muito difícil obter essa percepção e começar a aplicar a disciplina positiva, mudando essa lógica para os outros ao redor, fazendo-os entender porque ainda estão nesse ciclo.
As crianças de hoje em dia são mais difíceis?
A nossa sociedade sempre viveu numa lógica de relações verticais, com a existência de um superior e um inferior, e essa lógica, de alguma maneira, sempre funcionou para os adultos com as crianças.
Muitas pessoas falam “nossas crianças de hoje em dia estão muito difíceis”, mas, na verdade, as crianças estão as mesmas, continuam fazendo as mesmas coisas que qualquer criança, a diferença é que a gente as observa mais, pois estão crescendo num mundo um pouco diferente energeticamente, e outros aspectos como as questões de tecnologia e desenvolvimento.
Em termos de posicionamento as crianças são as mesmas, a grande diferença é que elas, até um tempo atrás, eram mais submissas por que a nossa sociedade, de uma forma geral, vivia essa submissão.
Mudanças de comportamento e um novo olhar sobre educar nossas crianças
Dessa maneira, os homens sempre foram submissos ao trabalho e aos seus chefes, as mulheres já foram muito submissas aos homens, e nós, graças a Deus, conseguimos, em algum momento, quebrar essa lógica — os homens passaram a repensar seu papel na sociedade e as mulheres também.
Os homens hoje não aceitam mais estar ou serem submissos ao trabalho, ao emprego, ao chefe. As mulheres hoje não aceitam mais estar ou serem submissas numa relação. A criança então, olha, que coisa boa, não tem mais esse modelo de submissão, e é por isso que as crianças estão diferentes no sentido de não conseguirem mais serem submissas aos adultos.
O que é e o que não é disciplina positiva
Mas isso é completamente positivo, se formos pensar em toda a história da sociedade, no que desejamos para elas, nas habilidades de vida que desejamos para elas. Será que a submissão é uma delas ou será que queremos que se tornem pessoas autoconfiantes, respeitadas, mas respeitosas consigo mesmo, e também com os outros?
Então, vale muito a pena conversarmos sobre isso, na medida do possível, com aquelas pessoas que ainda têm dificuldade para entender a lógica da disciplina positiva. Mais uma vez, disciplina positiva não é permissividade, não é deixar a criança fazer tudo que ela quiser, não ter regras, não ter limites, essa não é a proposta da disciplina positiva.
A disciplina positiva é o exercício da firmeza e da gentileza ao mesmo tempo, das possibilidades, da flexibilidade, mas dentro de alguns limites.
Então, queria trazer essa reflexão para a gente pensar quais são as características que queremos desenvolver nas nossas crianças, se a gente quer simplesmente interromper maus comportamentos, se a gente quer simplesmente que elas parem de fazer alguma coisa que está nos incomodando para nos obedecer e serem submissas ou se queremos lidar com isso, aproveitar esses desafios para ajudá-las a ter características de vida e sociais importantes. Vamos refletir sobre isso? Se quiser conversar mais comigo, me encontre no Instagram! Preparo muitas dicas por lá! Um beijo!