Criança encolhida sentada olhando para o pai

Ameaças e ultimatos na educação das crianças funcionam mesmo?

Quero começar esse texto te fazendo duas perguntas:

#1. Quais são os ultimatos que você usa com a sua criança?

#2. Quais são as ameaças que surgem para que ela cumpra com as suas expectativas?

Não me entenda mal, as perguntas são para que a gente possa fazer uma espécie de exercício de reflexão. Sem julgamentos… Que tal se listarmos aquilo que a gente usa como punição?

Talvez nesse momento alguns de nós podemos nos perguntar: “mas ameaçar tirar algo da criança e dar ultimatos para que ela saiba cumprir as tarefas da casa não é punir, é fazer com que a criança tenha receio de perder alguma coisa e que a partir disso aja com responsabilidade.

Talvez essa seja uma lógica que nos foi ensinada. Hoje, depois de mergulharmos na informação, não cabe mais pensarmos que o medo, ou a ameaça possam ser ferramentas que trazem resultados positivos.

Ora, o medo não é uma espécie de punição?

Quando alguém nos traz demandas a partir do medo, a gente cumpre porque criamos um senso mágico de responsabilidade, ou a gente cumpre pelo medo da punição, medo de perder algo, medo de não nos sentirmos aceitos, amados ou importantes?

Porque a partir do momento que cumprimos a demanda pelo medo, estamos tão conectados no medo que nos desconectamos de todo o resto. Nos desconectamos da cooperação, nos desconectamos da autoresponsabilidade, nos desconectamos da vontade de ser útil e ajudar.

Se vamos por esse caminho do medo, da ameaça e do ultimato, a criança vai sim cumprir o que queremos e demandamos (pelo menos na maioria das vezes). Ela vai fazer isso por conta do ultimato ou da ameaça. E depois? O que ela faz com isso? E quando não estamos lá para dar a última palavra? Ou, será que isso é realmente respeitoso?

Costumo dizer que somos uma panela de pressão. Vamos colocando nossos sentimentos lá dentro, fechamos a tampa e boom! Uma hora explode. Começamos na lógica do medo, e em um pulo vamos para a raiva que surge quando nos sentimos injustiçados. E quando eu falo isso, eu sei que no fundo, todos nós adultos sabemos o que é esse sentimento de ser injustiçado e o que ele pode fazer conosco. Ou alguma vez vez você foi ameaçado e pensou: “puxa, que pessoa legal essa que está me ameaçando. A próxima vez que eu precisar de apoio em alguma situação é essa pessoa que eu vou procurar.” Sabemos que não.

Não é assim que vemos quem nos ameaça. E nesse caso, a criança fica bem confusa sobre o fato de que as pessoas com as quais ela mais precisa contar são as que a ameaçam. A criança passa a não saber exatamente por qual motivo ela deve ou não realizar tal demanda, tudo que ela quer é evitar se sentir mal com as consequências. Tudo que ela quer é se sentir amada, aceita e importante.

A verdade é que nenhum de nós quer se distanciar da criança. Nenhum de nós quer causar nela esse sentimento de se sentir injustiçada. Tudo o que queremos é educar. Tudo o que queremos é que as crianças sejam adultos cooperativos, responsáveis, felizes. Sabemos que somos o exemplo mais forte para que a criança se espelhe, mas às vezes insistimos em agir de maneiras automáticas, e se pudéssemos ver refletido o que estamos fazendo com a criança quando ameçamos ou damos ultimatos, não gostaríamos de nos ver no espelho.

E aqui, muita gente se pergunta: “mas se eu não ameaçar, se eu não der um ultimato, nada funciona”.

Mas afinal de contas, o que é funcionar?

Tem a ver com a criança cumprir com as nossas demandas e atingir nossas expectativas ou é sobre a gente aproveitar os desafios com ela para ensinar habilidades e criar relacionamentos que são e serão profundos e duradouros?

Questionar, buscar compreender regras e demandas é um sinal de independência. É um sinal de ser capaz de avaliar se aquilo faz sentido para mim. Desejamos criar futuros adultos que simplesmente aceitam tudo, batem continência para tudo e todos, ou futuros adultos que buscam olhar para dentro, que se conhecem e que são capazes de entender os seus próprios limites e o dos outros?

Sei que depois de toda essa reflexão, se ela fez sentido para nós, queremos saber então o que usar no lugar dos ultimatos e das ameaças. Queremos logo correr para a solução. Minha proposta é que a gente fique mais tempo com a reflexão e deixe que ela seja absorvida. Que a gente dê tempo para se analisar, se questionar e se rever. O resto é assunto para outro texto.

“O medo é poderoso, mas não gera uma atmosfera de proximidade e confiança. Sua influência será muito mais positiva e seus relacionamentos, mais próximos, se você promover um clima de respeito e tranquilidade, em que não exista o medo da culpa, da vergonha ou da dor.”

(trecho do livro CRIANÇAS DINAMARQUESAS)

Me conta o que achou da reflexão?

Com amor,

Mari

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Foto de  Dra. Mariana Lacerda

Dra. Mariana Lacerda

Terapeuta ocupacional, Mestre em Ciências da Reabilitação e Doutora em Saúde da Criança e do Adolescente pela UFMG.

Uma abordagem baseada em afeto e respeito para transformar a educação de crianças e jovens.

Aprenda como lidar com as explosões emocionais das crianças de forma respeitosa e eficaz.

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