criança ruiva de aproximadamente cinco anos de idade, deitada de barriga no chão com os braços cruzados sustentando a cabeça com um olhar de que algo a incomoda naquele momento, transmite um sentimento de chateação, raiva.

Um olhar novo sobre a birra da criança: é possível acabar com ela?

Sei que a birra pode ser algo difícil de lidarmos, porque não sabemos o que fazer quando vemos a criança gritando, chorando, se comportando de uma maneira fora do próprio controle e do nosso também. 

Pode ser muito difícil acolher a criança nesse momento, entendendo o que está passando com ela e como podemos ajudá-la. Acredito que as duas coisas que mais mexem com a gente na hora da birra são: um fator externo — “o que as outras pessoas vão pensar sobre mim?” — e um fator interno, o auto-julgamento.

Como as pessoas influenciam na birra da criança?

A primeira reflexão que precisamos fazer é: “qual é meu medo em relação às pessoas quando meu filho faz birra?”. É importante identificarmos isso porque talvez estamos tentando acabar com a birra e lidar com o nosso filho não por ele, mas pelas outras pessoas. 

Sendo assim, nossas estratégias não vão funcionar, pois estamos desconectados da criança e focados em agradar os outros, em não nos sentirmos julgados, em corresponder a expectativa da sociedade que está nos definido como pai ou mãe ruim, porque a criança está tendo determinado comportamento. 

A primeira reflexão que gostaria de deixar é essa: “quais são os julgamentos que passam pela minha cabeça na hora da birra do meu filho?”.

É normal não sabermos lidar com a birra?

A segunda reflexão diz respeito aos nossos sentimentos: Também sentimos angústia e preocupação, portanto, é normal não sabermos lidar com a birra. Nós nos julgamos a todo momento, e essa crítica interna nos faz pensar que a criança está fazendo birra porque estamos fazendo algo de errado na criação dela.

É como se passasse uma tela na sua mente falando: “olha, se você estivesse sendo uma mãe melhor ou um pai melhor, o seu filho não estaria fazendo isso”. Mas isso não é justo com você! 

A birra é algo normal, que todas as crianças vão passar. Você pode ser o melhor pai ou a melhor mãe do mundo, pode aplicar todas as ferramentas da Disciplina Positiva, saber tudo de comunicação não violenta e ter agido com criação com apego durante toda a vida que, ainda assim, a criança vai fazer birra. 

Afinal, o que é a birra?

A birra é um processo em que a criança está cheia de sentimentos e não tem palavras para expressá-los, pois não possui, ainda, habilidade emocional. Por isso, ela vai colocar os sentimentos para fora de maneira mais forte. 

Quando a birra vem à tona, o cérebro ainda não está pronto para se acalmar sozinho e fazer a regulação emocional. Então, quero te dizer que a birra vai acontecer independentemente e apesar de você ser o melhor pai ou a melhor mãe do mundo.

Um outro olhar sobre a birra

Já pensou no quanto é difícil para nós estarmos no controle dos sentimentos? Nós, que conseguimos equilibrar as emoções no nosso córtex pré-frontal porque ele já está amadurecido, ainda temos dificuldade… Imagine as crianças!

Não deveríamos ficar surpresos com o fato de a criança não saber lidar com as emoções! Também não deveríamos querer fazer com que aprendam a lidar com suas emoções a qualquer custo e muito rápido. 

Realmente aceitar esse processo, entender que faz parte e gastar nossa energia ajudando a criança a lidar com seus sentimentos ao invés de querer eliminar isso para que as birras não mais aconteçam é difícil.

E mesmo quando entendemos isso e vemos a birra de outra maneira, a criança ainda vai precisar de mais tempo, mais repetição e alguns meses ou até alguns anos. Escuto de muitas pessoas: “olha, Mari, estou fazendo tudo que você sugere, mas meu filho ainda continua fazendo birra”.

Tenha paciência

Cada vez que você pratica as estratégias de validar os sentimentos, conversar, tentar ajudar a se acalmar, encontrar soluções e outras ferramentas da Disciplina Positiva no momento da birra, isso não define que a birra não vai acontecer mais. 

É como se a criança fosse uma árvore, uma plantinha, e você está regando para crescer, dar frutos e flores. Paciência: acredito que não tem outra palavra melhor para nos nortear nesse processo deles e nosso — afinal, se não é fácil para nós estar no controle das emoções, imagine para a criança! 

Um beijo e até o nosso próximo encontro.

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Foto de  Dra. Mariana Lacerda

Dra. Mariana Lacerda

Terapeuta ocupacional, Mestre em Ciências da Reabilitação e Doutora em Saúde da Criança e do Adolescente pela UFMG.

Uma abordagem baseada em afeto e respeito para transformar a educação de crianças e jovens.

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